Monday, 8 February 2010

Eu, 3

Londres está tao cinza hoje que chego a suspirar de pura satisfação-êxtase.

Mas eu não sou mais apenas o que eu sinto.

Sou o que eu era, o que eu estou e onde eu vou ser: tríptico de sangue no lago a tarde no outono e em silêncio de folhas secas pelo chão depois da chuva.

Clodie Vasli
(uma espécie de solo ao piano depois que todos foram embora, inclusive o pianista)

Saturday, 6 February 2010

Sábado de Sol

Aluguei um caminhão.

Não, não aluguei nada.

Eu queria era poder escrever algo todos os dias. Mas na maioria do tempo estou muito cansado do trabalho. Mas te prometo que eu vou tentar.

Só que hoje é sábado e não tenho que trabalhar, graças a Deus.

Acabei de fazer faxina na cozinha pois era meu dia na rota da limpeza aqui em casa.

Tenho que responder e-mails, arrumar meu quarto, e queria ir na Tate hoje. A Tate Modern fecha às 22h nos sábados e nas sextas. Mas acho que não vai rolar. Tenho que terminar meu projeto de arte pra apresentar sábado que vem. E ainda por cima, estou sem dinheiro pra sair. De novo.

Ai, ai. Acho que vou dormir um pouco. Só em pensar em tudo o que tenho pra fazer, já fiquei exausto.

Eu e o Garfield.

Um abraço pra você.

Clodie

:-)

Sunday, 31 January 2010

Mas então, eu me pergunto tudo isso o quê? Eu pertenço mesmo a este lugar? Será? E se eu estiver errado? Esta cidade me pertence? Será? E se eu estiver enganado.

O trabalho aqui é duro. A realidade, a nossa vida de brasileiros aqui trabalhando em restaurantes, cafés, bares e hotéis é um dia-a-dia bem difícil. É muita luta. Jornadas de trabalho de onze, doze, treze horas por dia às vezes.

E, no fim do dia, aqui estou - completamente esgotado, com os pés doendo, com a cabeça doendo (nem sempre a gente consegue se alimentar direito), com as costas e os ombros e os braços e as pernas doendo também.

Então, tenho pensado que eu preciso trabalhar. Mas trabalhar em algo que eu goste. Em algo em que eu possa criar. Em algo em que eu possa inventar. E, agora, depois de anos fora do Brasil a resposta me é tão clara. Tudo ficou tão mais evidente. Só existe mesmo um caminho para mim seguir: a minha própria arte. A minha própria criação. A minha própria obra.

Estou criando um labirinto de idéias. Seus galhos crescem com tanta força que, mais dia menos dia, ainda vão acabar por me sufocar.

Mas até lá, até este dia eu tenho muito ainda por criar.

Saturday, 30 January 2010

Relógio De Parede

Hoje eu estava de folga. E como de costume: levantei tarde, lavei roupas, organizei meu quarto, fui fazer compras e descansei um pouco.

Hoje telefonei para a minha mãe. Em casa, tomei café e comi uns biscoitos que eu gosto muito.

Hoje comprei um cartão de aniversário e comecei a ler pela primeira vez um romance em um outro idioma.

Hoje percebi que estou com barriga e que não faço nenhum exercício físico. Não corro no parque regularmente, não vou à academia e nem comecei ainda a colocar em prática o meu projeto entrar-em-forma-para-o-verão-começar-na-próxima-segunda.

Hoje escutei minhas músicas favoritas e assisti televisão. Não fui ao cinema ou ao teatro, não fui a nenhum museu ou galeria de arte e não atendi telefonemas.

Hoje é um dia de sol forte e céu azul. Mas eu não gosto de sol muito forte e nem de dias quentes. A dúvida que a minha digestão não consegue triturar é esta: serei eu também uma pessoa nublada?

Mas ainda hoje confundo "kitchen" com "chicken". Uma vez quando eu trabalhava num buffet, ofereci (sorrindo) ao cliente: "Would you like some kitchen?"

Hoje, se você quiser, você tem o poder de mudar toda a sua vida.

Mas apenas hoje.

Clodie Vasli

© Clodie Vasli, 2008

[Londres / primavera de 2005]

Sunday, 10 January 2010

O Manifesto Internacional Dos Dias Nublados

ou

A Declaração Universal De Um Sonho Realizado


A sensação era de que o café-da-manhã às nove não poderia ter sido mais completo: pão integral, café-com-leite, fruta, iogurte com cereais, biscoitos, suco de laranja feito na hora.

Estava sozinho em casa.

Pois se morava sozinho e era solteiro.

O banho às oito e meia havia sido revigorante e demorado.

Saiu para ir trabalhar.

A manhã de Dezembro era fria, cinzenta.

No caminho para a estação de trem em Deptford Bridge sentiu o vento forte e gelado contra o rosto.

Era inverno.

Todos os prédios e casas naquela rua tinham tijolos escuros, marrons.

No trem: uns distraidos, outros contrariados, quase todos: pensativos.

Mas ele entrou, procurou por um vagão vazio e sentou à janela.

O subúrbio daquela cidade era longe, nublado, industrial.

O ar metálico.

Enquanto olhava pela janela, levantou os olhos para o céu e, mais uma vez, agradeceu.

E o seu coração continuaria a lhe guiar.

E a sua fé o protegeria.

Enquanto lia o The Guardian, concluiu:

sim, era uma pessoa feliz.

© Clodie Vasli, 2009

Tuesday, 22 September 2009

Walking Alone Inside The Kitchen Around The Table


Every single minute in the night is the right moment to stretch your muscles.

My head does not take any time off and spins and jumps.

But the Feelings - well - I knit them in colorful patterns [in wax and clay]. New shapes: night and day.

I look up and then I leave my chair to go outside at three in the morning.

I think of Planets and countries and seas and mountains and I would like to visit Italy one day.

I will go discovering, I will travel and make joyful-super-sculptures across the world.

This town will be all dressed in Autumn by the end of September.

I drink another cup of tea.

And I smile when I think of you

and me.

Clodie Vasli

© Clodie Vasli, 2009

Processos Criativos Em Escultura


Cada hora na madrugada é um momento novo para se alongar os músculos.

A cabeça, esta minha não descansa nunca.

Que os Sentimentos estes pois são fermento para cada sonho-sim e para cada pão-não.

Eu levanto da cadeira agora e vou até a sacada.

Estico as pernas e os braços e penso em um dia ir conhecer a Itália.

Eu vou perambular pelo mundo e fazer esculturas-super-felizes.

Esta cidade aqui fica toda vestida de outono quando Setembro vai terminando.

Eu tomo mais uma xícara de café.

E continuo sorrindo.

E sonhando...

Clodie Vasli

© Clodie Vasli, 2009