Um silêncio para que eu possa ouvir o meu próprio isolamento e suas continuações.
E um espaço onde eu possa gerar este trabalho.
Uma mesa, um papel e uma caneta. O banco, a noite e o vento. E uma ausência total de sons.
Mas no ato de criar há a necessidade de se destruir.
Eu destruo o que me atrapalha. E minha concentração só a consigo com muito esforço. Não é fácil para mim falar através de simbolos e palavras e periodos.
Um encarceramento primeiro dos limites do corpo e depois das obrigações da casa. Eu vou dobrar roupas e organizar papéis e ler o jornal e ir ao cinema e assistir televisão e dormir e comer. Mas por que mesmo eu estou fazendo tudo isso? O que é mesmo que está me mantendo acordado?
Hoje, nesta cidade, um menino de doze anos foi assassinado por dois cães ferozes e sem piedade alguma.
Eu sei que estou criando um inverno só para me proteger dos efeitos nocivos do sol mas então é assim: cria-se invernos.
E eu lamento imensamente que outros seres humanos também habitem este apartamento onde vivo agora. Quem me dera morar sozinho. Ao invés disso, sou obrigado a morar com estranhos.
Quem me dera: não-seres-humanos.
(Londres, 22/01/07)
© Clodie Vasli, 2010
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